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12/16/16

  04:06:00 pm, by Ricardo Esplugas de Oliveira   , 956 words  
Categories: Meio ambiente e saúde

6 pontos em comum entre o vazamento químico em Santos em Janeiro/16 e a tragédia de Bhopal, o maior acidente industrial da história

6 pontos em comum entre o vazamento químico em Santos em Janeiro/16 e a tragédia de Bhopal, o maior acidente industrial da história

Em janeiro de 2016 milhares de pessoas nas cidades de Santos e Guarujá foram expostas a gases desconhecidos, provavelmente tóxicos, produzidos em uma acidente químico no porto. Apenas 2 meses passaram-se (eu escrevo em Março) mas o acidente já parece ter sido esquecido, pois não se escuta mais nada sobre o tema (pelo menos na media “mainstream”). Este serviu para mostrar a falta de preparo generalizada para lidar-se com este tipo de tragédia, apesar de o fato ter ocorrido próximo à cidade mais poluída do mundo (Cubatão), onde desgraças deste tipo não deviam ser uma surpresa muito grande. Pode-se lembrar, por exemplo, da Vila Parisi que era conhecida como “vale da morte” com crianças nascendo sem cérebro e também daVila Socó que foi incendiada por um duto de gasolina da Petrobrás que vazou milhares de litros (em 1984) e pulverizou as favelas acima. Também em 1984 ocorreu, em outro país também de terceiro mundo, o maior acidente industrial da história: o desastre de Bhopal (Índia), onde milhares de pessoas foram mortas  devido ao vazamento de gás altamente venenoso. Como em Cubatão, a fábrica afetada era cercada de favelas onde moravam seus trabalhadores em condições precárias (sem saneamento e outros serviços básicos) e extremamente poluídas. Curiosamente a tragédia de Bhopal tem outros pontos em comum com o recente vazamento químico em Santos, embora tenha sido imensamente mais grave. A seguir eu exploro estes pontos.

 

1 - Tratou-se de um isocianato.

Em Santos foi liberado o dicloro isocianato e em Bhopal foi liberado o isocianato de metila. Fortunadamente a toxicidade do dicloro isocianato (de Santos) não se compara ao terrível veneno que é o isocianato de metila (MIC), que em Bhopal foi liberado na forma gasosa em quantidades muito maiores (toneladas).

 

2-Reações químicas descontroladas foram iniciadas pela água.

No caso de Santos foi relatado que água da chuva penetrou em contêiners que continham produto químico sensível a água, causando reação e subsequente liberação de gases.

Em Bhopal a água, proveniente de um serviço de limpeza de tubos, adentrou os tanques de armazenamento de MIC, causando uma “runaway” reaction que liberou o gas pelas chaminés de emergência.

 

3- Durante os acidentes, não se sabia qual era o produto químico liberado na atmosfera. Isto só foi constatado muito mais tarde.

No caso de Bhopal já haviam acontecido vazamentos menores que causaram vítimas, mas estes não receberam a devida atenção e a maioria da população ignorava o perigo que morava ao lado.

Em Santos houve relatos ao meu ver incertos sobre a natureza do vazamento. A maioria dos meios de comunicação citou o dicloro isocianato mas houve também relatos onde “a substância que vazou tinha características de amônia”. Houve textos jornalísticos ainda mais vagos dizendo que espalhou-se “fumaça”. Até hoje não me parece que houve um estudo definitivo. Por favor comentem aqui se alguém tem informações mais precisas.

 

4- Ausência de sistemas de alarme e procedimentos de evacuamento

A foto no início deste post foi feita por mim mesmo, em uma praia do País Basco, na Espanha. Escrito em castelhano à direita e em basco à esquerda, o cartaz informa aos usuários da praia os tipo de alarme que podem ser acionados, com diferentes significados dependendo da quantidade e duração dos toques da sirene. Abaixo (não aparece na fotografia) há também informações gerais sobre procedimentos de segurança em casos de vazamentos químicos.

Nada parecido havia em Santos. Em Bhopal havia uma sirene  mas a noite do disastre ela  foi acionada tardiamente. Ela era localizada na fábrica e não podia ser ouvida pelos residentes mais distantes, mas que tiveram a infelicidade de estar na direção do vento na noite fatídica.

 

5- As pessoas não sabiam como proteger-se de um acidente desta natureza.

Devido à falta de informações sobre o produto químico liberado em sua atmosfera, os moradores não tinham condições de tomar as devidas providências. Pessoas ingressavam hospitais e os médicos não sabiam que condição tinham que tratar. Era impossível aplicar um antídoto sem conhecer o veneno. No caso de Bhopal foi mais tarde constatado que o antídoto necessário era uma substância simples e amplamente disponível. Em Santos foram distribuídas máscaras simples , do tipo para conter poeira, supostamente sem saber se teriam eficácia contra os gases desconhecidos.

As pessoas desconheciam até as recomendações mais básicas, como permanecer dentro de casa e fechar as portas e janelas. Algumas saiam correndo, o que aumentava a inalação de venenos. Em Bhopal, apenas a simples recomendação de usar um lenço húmido no nariz e na boca teria salvado muitas vidas e muito sofrimento.

 

6- Foi cogitado de levar a fábrica responsável pela tragédia de Bhopal para Cubatão, de forma que ambos desastres poderiam ter sido vizinhos

 A fábrica de Bhopal, pertencente à Union Carbide (UC), já encontrava-se em decadência antes da tragédia. A queda na demanda do pesticida que ela fabricava causou uma grande queda na sua rentabilidade e a matriz da UC nos EUA passou a cortar custos, diminuindo a frequencia da sua manutenção e mandando embora muitos funcionários. Até os procedimentos de segurança do seus tanques de MIC foram relaxados, como o resfriamento dos mesmos (para economizar eletricidade) e os serviços de tratamento de eventuais vazamentos do mesmo via chaminé. Até mesmo uma simples chama no topo da chaminé teria destruído boa parte dos venenos liberados sobre a cidade de Bhopal (chama esta no estilo daquelas que vemos encima de chaminés em complexos químicos como por exemplo em Cubatão).

Enfim, a decadência da fábrica levou à ideia de desmontá-la e exportá-la para outro país de terceiro mundo. Foi considerado levá-la para Cubatão. Aliás, a UC foi uma das primeiras empresas a chegar em Cubatão (1958).

Após a tragédia a UC mudou seu nome para DOW, supostamente para tentar evadir as responsabilidades criminais. No caso de Santos me parece que não está ainda claro quem foi o responsável.

 

 

 

 

02/25/15

  06:22:00 pm, by Ricardo Esplugas de Oliveira   , 453 words  
Categories: ensino bilingue, mapas conceituais

Introdução de novos conceitos em escolas bilíngües por meio demapa conceitual: breathing e respiration

 

 

Mapas conceituais são uma importante ferramenta no aprendizado em geral, e eles são particularmente úteis no contexto de conceitos que podem causar confusão. O ensino de ciências bilíngue às vezes requer a divisão de um conceito em dois, e isto será discutido com o auxílio do mapa abaixo. Cabe lembrar que os conceitos de breathing e respiration confundem até mesmo estudantes de língua materna inglesa.


Introdução de novos conceitos em escolas bilíngües por meio demapa conceitual: breathing e respiration


O conceito de respiração (na língua portuguesa) é interdisciplinar: ele envolve fenômenos biofísicos ao nível do pulmão e bioquímicos ao nível da célula. A língua inglesa separa os fenômenos biofísicos, sob o conceito de breathing, e os bioquímicos sob o conceito de respiration. O mapa apresenta detalhes do processo biofísico por um lado e detalhes do processo bioquímico por outro lado, para que a separação seja evidente na mente do estudante.

O processo biofísico compreende a expansão e subseqüente contração da caixa torácica. A expansão causa um aumento do volume e portanto uma queda da pressão do ar dentro dos pulmões (de acordo com a lei dos gases). Desse modo, a pressão fora do corpo é a maior que a pressão dentro. Isso causa a entrada de ar nos pulmões, para que as pressões interna e externa sejam equilibradas, isto é, tornem-se iguais. Este é o processo de inspiração. Em física, as coisas tendem a equilibrar-se. Sabemos que as temperatura de um café muito quente é equilibrada com a do ar e o mesmo acontece com a cerveja gelada. No processo de expiração acontece o contrário: a caixa torácica se contrai causando aumento da pressão interna ( a um nível maior que a pressão fora do corpo) o que faz o ar deixar os pulmões para que novamente as pressões se equilibrem. Isto é a expiração.

Os processos bioquímicos, que ocorrem no interior da célula, constituem a “queima” da glicose produzindo energia, água e gás carbônico. Esta reação química é similar à de queimas que acontecem fora do organismo, na química inorgânica. A queima de glicose, ou de gás metano ou gasolina seguem a mesma reação. A diferença é que no interior da célula, mais precisamente dentro da organela chamada mitocôndria, este processo ocorre de maneira mais “suave”, com o auxílio de enzimas respiratórias. A energia é liberada em pequenos passos para não danificar a célula, e portanto o processo é mais complexo que uma queima ordinária, embora essencialmente seja a mesma coisa, afinal a reação química (mostrada no mapa) é a mesma.

Para alunos iniciantes no ensino bilíngüe, este mapa pode ser usado como exercício, de modo que uma lista das traduções das palavras usadas é oferecida em uma folha impressa para o estudante recortar e construir o mapa em sua mesa.

Link para artigo em inglês

  02:20:00 pm, by Ricardo Esplugas de Oliveira   , 629 words  
Categories: vestibular

O aparente descaso com os laboratórios de ciências escolares

Tendo lecionado em duas escolas secundárias no sudeste da Inglaterra (que é a região mais rica do país depois da capital), eu me surpreendi com a simplicidade dos experimentos realizados nos laboratórios. Embora todas as escolas possuamlaboratórios razoavelmente equipados e também técnicos contratados para preparar as aulas e lavar as vidrarias, as atividades práticas geralmente deixam a desejar e raramente estimulam a curiosidade e a criatividade dos estudantes. Existem aulas em que se usam apenas balões (bexigas de borracha), ou água, ou algum produto químico doméstico. Os alunos cansam de ver a solução azul de sulfato de cobre.

Sem dúvida que existem experiências muito interessantes que podem ser realizadas usando apenas produtos químicos domésticos, embora nem essas são devidamente exploradas. Mas para mostrar a beleza da química e motivar estudantes é necessário usar pelo menos alguns ácidos, mesmo que apenas na forma diluída ( o ácido concentrado não é sempre necessário).

Ao meu ver isso se deve a 2 problemas principais:

1) O custo dos produtos, incluindo reagentes, vidrarias, EPI’s, etc.

2) o custo de fazer o seguro do laboratório aumenta de acordo com o nível de perigo oferecido. Some-se a este o custo do seguro jurídico, caso algum professor ou a escola sejam processados devido a algum acidente ou intoxicação.

3) a crescente onda de mau comportamento, estimulada pelas novas tecnologias eletrônicas, entre outros motivos. Alunos estão mais interessados em brincar com o celular ou ver vídeos na internet. Até os alunos estudiosos muitas vezes preferem ou confiam mais em conteúdo encontrado na internet do que nos ensinamentos do professor. Fica difícil dar uma garrafa de ácido a um aluno que está gritando ou badernando no meio do laboratório.

Ou seja , há diversas razões que levam as escolas a oferecer apenas materiais muito simples e inofensivos em seus laboratórios de química. No casoKiera (ver artigo anterior), apenas materiais domésticosestavam sendo utilizadas, e assim mesmo puderam algemá-la e prendê-la por Felony, devido a uma pequena explosão acidental...

Esta é uma situação grave porque as atividades práticas são essenciais para o entendimento dos fenômenos e também para estimular o interesse pela matéria. Boas práticas envolvem certos riscos que devem ser considerados.. Mesmo atividades cotidianas em uma cozinha envolvem riscos, como fritar ou utilizar facas afiadas , por exemplo.

Outro problema criado no intuito de reduzir possíveis acidentes é o uso intensivo de ‘receitas” no laboratório, ou seja, a prática na qual os alunos devem seguir as instruções estritamente. Toda experiência possui um procedimento bastante rígido de modo que todos possam obter exatamente o mesmo resultado. Isto é um problema porque não permite o uso da criatividade e não permite que o aluno explore. Queremos formar pesquisadores, pessoas que façam novas descobertas. Essa habilidade pode não ser fomentada em um grupo de seguidores de receitas.

 

A situação no Brasil

Aqui no Brasil existe uma diferença básica, e que torna a situação ainda pior: não existem exames práticos e, em particular, os vestibulares não cobram nenhum tipo de habilidade laboratorial. Nem mesmo para as carreiras de química, farmácia ou medicina.

Dessa forma, existem muitos colégios – incluindo alguns dosque são considerados os melhores - que não oferecem práticas de laboratório estimulantes para os estudantes. De fato, eles geralmente possuem um laboratório pobremente equipado. O critério normalmente usadono ranking dos colégios é a aprovação no ENEM ou FUVEST, de modo que lhes interessa pouco investir em laboratórios.

Eu tenho trabalhado como professor particular , tenho alunos dos melhores colégios de São Paulo. Quando lhes pergunto sobre um experimento de química que lhes tenha impressionado, raramente mostram alguma empolgação.

Os alunos dos melhores colégios acabam aprendendo de qualquer jeito, porque são altamente motivados e inteligentes. Além do mais eles sofrem uma cobrança intensa. Eles triunfam no vestibular, mas privados de uma experiência enriquecedora e essencial para sua formação: o uso constante do laboratório.

  01:57:00 pm, by Ricardo Esplugas de Oliveira   , 368 words  
Categories: Meio ambiente e saúde

Historias cáusticas: o suquinho contaminado e a garota expulsa da escola, algemada e presa.

 

Pouco conhecido é o drama da estudante Kiera Wilmot que foi presa porFelony , uma categoria de crime que inclui estupro, homicídio e outros crime hediondos, por tentar um experimento no laboratório da escolausando produtos domésticos ordinários(http://networkedblogs.com/KOAY3).

O experimentocausou uma pequena explosão em que ninguém ficou ferido e que não causou nenhum dano ao laboratório. Este consistiu de umabomba draino ( draino é o nome comercial da soda cáustica em grãos vendida livremente nos EUA).A bomba draino consiste de uma mixtura de água, soda cáustica (NaOH)e alumínio, dentro de uma garrafa. O resultado é uma reação química que produz o gás hidrogênio, de modo que a pressão dentro da garrafa aumenta até que ela se rompe (explosão). Inúmeros vídeos no YouTube ilustram esta reação química. Não é uma explosão violenta, embora bastante barulhenta. Poderia causar problemas caso alguém fosse atingido pela soda cáustica , que causa queimaduras. Não foi o caso.

Explosões podem ser produzidas usando vários outros produtos domésticos. Até mesmo uma mistura de bicarbonato de sódio e vinagre, dentro de uma garrafa, pode causar uma explosão. Nesse caso haveria perigo apenas se o vinagre atingisse os olhos de alguém. Kiera seria expulsa da escola e presa se ela estivesse experimentando com essas substâncias? Me parece um absurdo que uma estudante seja presa por experimentar no laboratório.

A situação em que uma pessoa paga para tomar um suquinho e ingere soda cáustica me parece muito mais grave do que o caso Kiera.

No caso da escola, embora as pessoas pudessem ter sido queimadas externamente, nada aconteceu. Assim mesmo, a pele exposta à soda cáustica poderia ter sido lavada e tratada imediatamente.

No caso em que a soda cáustica é ingerida, o tratamento é muito mais complicado, e agravado pela ignorância dos fatos. É necessário um médico bastante competente para diagnosticar e tratar essa condição imediatamente, e são poucas as pessoasque tem acesso a um tratamento médico de alto nível. O vômito não pode ser provocado porque a soda cáustica ao ser expelida causaria lesões em outras regiões do corpo. Infelizmente, não se ouve mais falar nesse terrível acidente.

Enfim, dois acidentes com soda cáustica, onde um foi tomado muito a sério e o outro mais grave parece ter sido esquecido...

  01:47:00 pm, by Ricardo Esplugas de Oliveira   , 121 words  
Categories: Meio ambiente e saúde

Salto alto - vale o risco?

Salto alto - vale o risco?

Eu costumo impressionar-me com a coragem das mulheres que andam de salto alto pelas ruas esburacadas de São Paulo.

Não havendo acidente, a parte mais prejudicada é o joelho e não os tornozelos, pés ou dedos, como muita gente pensa. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de Tufnel (Massachusetts), um salto de 6.85 cm de altura (o que não é tão alto assim) aumenta a pressãona junta do joelho em 20 ou 25%.Curiosamente, os salto altos largos causam uma carga no joelho ainda maior que a causada pelos saltos altos fininhos, ossivelmente porque as mulheres andam nestes com mais confiança.

Às vezes as mulheres são obrigadas a usar o salto, mas se puderem optar eu sugeriria que essa prática fosse limitada a situações especiais...

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